Quando as palavras tocam

Têm dias que acordo com uma necessidade de consumir coisas. Não consumir roupa, sapato, perfume, não é isso, minha necessidade é maior que dinheiro e gosto por marcas. Tenho necessidade de consumir vida, olhares, sorrisos, afetos e tudo aquilo que me dá um prazer ingênuo. É que às vezes acordo assim: sentindo o vento em meu rosto, sentindo as pessoas passando por mim. Me dá uma alegria danada poder contemplar a natureza, sentir o aroma das árvores, sentir o calor humano e tentar de algum modo desvendar os mistérios que rondam a todos. Às vezes passo por algumas pessoas e logo penso com os meus botões: como eu queria que você fizesse parte do meu círculo de amigos, e coisas de instantes, meu sorriso fica largo, sinto uma alegria tão intensa que mal consigo descrever.

Outro dia aconteceu algo semelhante, eu estava passando por uma praça, aqui onde moro, e me encantei com uma garota. Ela olhava para o celular enquanto eu olhava para seu charme, seu cabelo afro era tão volumoso, era tão único, que olhei para trás e quase voltei para elogiá-la — elogiá-la sem pretensão alguma, apenas para alertá-la de que sua autenticidade foi observada.

Então fui a uma livraria e enquanto procurava por um autor, fui tocando nos livros, sentindo seu perfume, e naquele universo à parte, imaginei o autor escrevendo e reescrevendo cada página, imaginei também uma xícara de café, um copo de uísque e como as palavras foram dando vida numa madrugada qualquer, numa manhã qualquer. Enquanto minhas mãos deslizavam sobre aqueles livros, pensava o que a página 52 me diria nesse meu dia tão nublado. De que forma as histórias, os pontos de vistas, poderiam me nocautear. Então abri uma página qualquer foi quando as palavras me tocaram. As palavras saltaram daquele livro e me tirou pra dançar. 

Ao sair da livraria, fui tomar sorvete, enquanto o sorvete de baunilha molhava minha boca, sentei-me num banco debaixo de uma árvore cheia de flores, e ali, me perguntava quem já sentou naquele mesmo lugar, o que passava pela sua cabeça, se estava triste, se estava alegre; durante o tempo que esses questionamentos todos me ocorriam, observei um homem de terno passando a meu lado, ele olhou pra mim e eu olhei pra ele, ambos se conectaram naquele instante. E naquele momento também me perguntei o que ele poderia ter pensado a meu respeito. Será que achava estranho um homem tomando sorvete sozinho? Será que tentava desvendar os meus mistérios? Será que havia projetado em mim o homem que um dia fora?

Não sei. Não me interessa saber. O que importa é sentir essa alegria fajuta e ao mesmo tempo estranha. O que me alegra é ser assim: dar um sentido a todas as coisas que vejo, a todas as coisas que toco. Quando não vejo e não toco, deixo as palavras dizer por mim.

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