Quando o ciclo se repete

Em 2006, o diretor Márcio Ramos, lançou um curta-metragem cujo título é “Vida Maria”. O filme, vencedor de vários prêmios, retrata a desigualdade social, a ausência de escolarização e as condições precárias a que várias famílias, principalmente no nordeste, sobrevivem.

No entanto, o filme é mais intimista, pois reflete a rotina da personagem Maria José, uma menina que fica vislumbrada ao aprender a escrever seu nome, mas é obrigada a deixar o caderno de lado para ajudar sua mãe nos afazeres domésticos. Enquanto vive a mercê de sua condição, ela cresce, casa e tem filhos – vários filhos. Então, quando se vê sem forças para carregar peso, vai atrás da filha mais nova, Lurdes, para ajudá-la.

A certa altura do filme, quando Maria José encontra Lurdes, sentada num banco próximo à janela, observamos à jovem vislumbrada também por aprender a escrever seu nome, porém sua mãe a obriga a deixar de lado o caderno e o lápis. Por fim, a garota deixa o que estava fazendo para ir trabalhar e, novamente, o ciclo se repete.

O curta tem aproximadamente nove minutos e termina no exato instante em que mostra a vida de tantas Marias que foram registradas naquele caderno, que um dia, ousaram escrever seus nomes.

Passados 10 anos, mudou muita coisa?

Vivemos em uma época em que somos ainda condicionados a exercer papéis que foram estabelecidos pela sociedade, um manual hierárquico de conceitos e valores em que há uma resignação partidária uma vez que existe uma estrutura a qual condiciona a visão de que a mulher nasceu para cuidar da casa e dos filhos.

Vida Maria é o retrato da realidade brasileira, e mostra o quanto é difícil encontrar o próprio eu sem que haja um estimulo dos pais e, sobretudo, um estímulo dos governantes. O quanto à pobreza e a submissão preenche a miséria existencial.

Quantas Marias há por aí, homens e mulheres que se acomodaram com o pouco por falta de perspectiva e de possibilidades. Homens e mulheres que não desenvolveram o senso crítico, e seguem repetindo os ciclos.  Homens que burlam a lei, homens que tiram a vida do outro; e mulheres que acobertam o que os maridos fazem. Homens que agridem mulheres porque um dia observaram seus pais agredindo suas mães. É ou não é um ciclo que se repete geração após geração?

Políticos corruptos que desviam verbas, tiram oportunidades, fazem loucuras por dinheiro. Até que num dado momento as máscaras caem e, diante da vergonha, há uma criança na sala assistindo à cena.

Está nascendo uma geração que não se resigna diante dos fatos. Uma geração que chegou para romper o ciclo vicioso e que se preocupa com o amanhã, mesmo não estimulados a encontrar o próprio eu, sabem que é possível construir a si mesmos ao olhar os relatos dos antepassados e, diante do que veem, insistem em escrever o próprio nome num papel. Contrariando o pré-estabelecido, contrariando o que está no manual de instrução, enfim, contrariado a todos.

Todos levamos entranhado em nós um “eu verdadeiro”, o qual, mesmo com dogmas e papéis sociais a cumprir, sempre estará lá, aguardando o momento certo para aparecer.

Comments

comments

Deixe uma resposta