Quando o estranho se apresenta

De repente você marca de ver um amigo que há tempo não vê, e então, se encontram num bar no fim de tarde, e papo vai papo vêm, você se pega desconhecendo seu parceiro e volta pra casa indagando: não parecia ele. Ok; pode ser que ele esteja com dificuldades no trabalho, com problemas na família, preocupado com as contas no final do mês. Pode ser. Mas certamente passará pela sua cabeça que ele mudou muito, que não reconhece mais seu parceiro, que não reconhece mais aquele que assistia a filmes com você aos finais de semana.

Toquei nesse assunto porque recentemente mandei uma mensagem, pelo Whatsapp, a um amigo e perguntei se estava tudo bem, e respondeu: “Oi, Leandro, tudo bem!”. Ao visualizar a mensagem, pensei com meus botões: o que será que aconteceu, ele não é assim…

É duro quando descobrimos que o comportamento de quem esteve ao nosso lado se distanciou daquilo que um dia tínhamos codificado. Por outro lado, é mais duro ainda quando se descobre que depositou uma grande expectativa em quem não tinha nada a oferecer.

É sabido que qualquer relação que se constrói (seja amizade, namoro, casamento) é preciso de uma reciprocidade. Uma relação só se constrói quando ambos doam um pouco de sim. Uma troca de experiências, um desabafo, uma ajuda, uma lembrança. Para se sentir a vontade é preciso saber o que o outro está ofertando. Até mesmo nos diálogos, a forma como se expressa, a escolha das palavras, o tom de voz muitas vezes intui algo além do que está sendo dito. A forma como você sorri depende do que o outro está emitindo. Repara: a forma como você fala com seu amigo alegre é a mesma forma quando fala com seu amigo preocupado?

Até mesmo num primeiro encontro, acho estranho quando alguém fica eufórico imaginando como vai ser, o que vai dizer a ponto de elaborar um roteiro do que deve e não deve falar. Que mania de querer controlar aquilo que não se tem controle.

Há algum tempo venho cultivando esse hábito de ouvir o outro além do ouvido, mas ouvir observando o corpo, o tom de voz, a respiração, o olhar, a escolha do vocabulário. É dessa maneira que descubro se através de um riso há um pedido de socorro, ou uma desculpa para fugir do assunto. 

Meu amigo, que nunca demorou a responder mensagens, passou a demorar. Ele, que nunca me chamou de Leandro, passou a chamar. Ele, que nunca usou exclamação, passou a usar. Não era motivo de perguntar se estava tudo bem mesmo. Mas levei aquilo a sério e achei muito estranho. Até que noutro dia comentei o fato, e sabe o respondeu? “Ah, desculpe, Lê, eu estava assistindo ao jogo do Brasil e Alemanha.”

Não prolonguei o assunto, mas também nunca mencionou que gostava de futebol.

Comments

comments

Deixe uma resposta