Receio de não fazer

Tenho uma prima que está pensando em fazer faculdade, e está em dúvida se faz recursos humanos ou administração. Ela que adora mexer com documentos, papéis e dinheiro, agora está entre uma coisa e outra até que dia desses me perguntou: “Se eu fizer administração vou me arrepender?”.

Ah, essa juventude de hoje… Faz de tudo para adiar uma coisa por receio de no futuro se arrepender. Essa minha prima talvez quisesse uma resposta exata sobre sua indagação. Talvez intuísse que eu ativesse. Ah, se ela soubesse o que se passa dentro de todos nós… Desconfio que sabe, mas a dúvida persegue igual e explico o porquê.

A gente pode amar uma profissão a todo afinco. Podemos esbravejar para o mundo que a gente ama o que faz, que estamos satisfeitos com a profissão que escolhemos, mas sempre aparecerá uma brecha especulando: e se tivesse feito diferente?

Isso quando a gente coloca a mão na massa e vai em frente. Mas por via das dúvidas, faz uma lista aí e coloca todas as coisas que você sonhou, todas as coisas que planejou, mas não a fez por receio de fazer. Por experiência própria faço jornalismo e volta e meia tenho uma crise e me pergunto se estou no curso certo, se faço o que gosto, se estou feliz fazendo o que gosto. É contraditório, porém poucas pessoas se abrem para falar o que se passa dentro.

Uma mulher que usa uma bolsa Louis Vuitton têm as mesmas indagações que as minhas. Um homem por de baixo do terno Armani segue com as mesmas dúvidas que a mulher de salto alto, as mesmas dúvidas que um jovem tem na escolha da profissão; segue com as mesmas dúvidas que tinham há vinte anos, no entanto, essas dúvidas são mais conscientes e não têm tanto espanto porque já se deram conta que a incerteza permanecerá até o fim de qualquer forma.

Enquanto nós, pirralhos, entramos em pânico ao ver as placas de advertência: direita ou esquerda, qual seguir? E por receio de fazer, muitos optam por não fazer nada, mas a insegurança vai perseguir de qualquer jeito, meu caro.

Você que está me lendo agora, o que o receio de fazer tem feito por você? Ele tem feito de você uma pessoa útil? Você aí sentado em frente à TV, ficar sem fazer nada está contribuindo para seu bem-estar? Você aí lavando louça, pensando na vida, o que o pensar demais tem feito por você?

Pé no acelerador, caríssimos. A dúvida conviverá com você até o fim querendo ou não. Se optar por uma vida mais simplificada e vivida em paz — mesmo com a dúvida — vai poder um dia quando seu joelho não estiver mais firme, quando sua voz estiver viscosa, rir dos próprios erros; vai poder orgulhar-se da própria coragem. Se optar pelo receio de não fazer, permanecerá com a dúvida até o fim da mesma maneira, porém, a dúvida será mais trágica: terá que se contentar com o fracasso de não ter se entregado para os riscos de percurso.

E isso não serve apenas para escolha da profissão, mas em tudo. Tudo na vida. Com os amigos, com a família, no amor, até mesmo com aqueles que desconhecemos. Ter receio de fazer é um desperdício imperdoável. Que em 2016 você consiga, por fim, abraçar o que está por vir.

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