Retalhos de quem sou

Eu estava de frente para ela quando perguntou: “Você tem ótimas qualificações, mas me diga: quem é o Leandro?”. Não é uma pergunta simples que se responde de imediato numa entrevista de emprego. Obviamente que naquele instante comecei a sentir um friozinho na barriga: e aí, Leandro, quem é você de fato?

Dei um sorriso bem largo e disse algo banal enquanto tentava construir uma narrativa sobre mim mesmo de modo a convencer que poderia me contratar, que poderia confiar no meu repertório, então comecei o discurso: Ah, essas perguntas que nos fazem os psicanalistas… este Leandro que está à sua frente é calmo, analisa todos os pontos antes de tomar uma decisão (o que também é um problema), raciocinar demais demanda tempo (coisa que estamos em falta) e demonstra que gosto de ter certo controle sobre a vida (essas coisas que a gente não tem). Sobretudo, se pudesse me resumir (coisa que a gente não pode) diria que sou alguém que se interessa por tudo. Porque a cada manhã tudo se renova, tudo se diz faz, desafios aparecem e a gente tem que se adaptar a esse mundo louco, mas sensacional e que amo fazer parte — pronuncio de bombardeio: perdi o controle sobre o que estava dizendo e conclui —, até o dia em que o cansaço me vencer ou eu cansar de ser engolido com tanta informação.

Ela arregalou os olhos, franziu o cenho e disse: “Que profundo”. Mas senti outra coisa com aquele olhar, senti um estranhamento diante das minhas palavras, e um estranhamento também senti ao ir embora. 

Se pudesse voltar na cena responderia de outra maneira: seria muito presunçoso buscar uma definição de quem eu sou, supondo que saibamos direitinho quem somos. Mas não. O que eu sou aparece diante de situações imprevistas, quando não tenho controle sobre o que estou sentindo, sobre o que está acontecendo, e de certo modo entendo que a cada acontecimento está ali, na derradeira, para que tiremos algum proveito, para que aprendemos e reavaliemos nossas condutas para depois seguir em frente.

A cada amanhecer, me renovo. Sinto um espanto ao me olhar no espelho, mas não sou eu, aquele que vejo é só um corpo, um sorriso largo, um olhar profundo, sou mais que isso. Sou como retalhos, Dona. Sou tecido e vou ganhando forma com os recortes da vida. Sou pedaços de um pano recortado, sou os pontos e as dobras.

Então acordo e vejo que sou mais do que fui ontem, ao sair daqui, também não serei mais o mesmo. Assim me faço. Sou os móveis que toco, sou os abraços que recebo, os sorrisos que ganho. Sou as poucas palavras, sou os advérbios de intensidade. Sou constante. Quem eu sou? Por mais que diga tudo ainda não será o bastante.

Comments

comments

Deixe uma resposta