Silêncio que grita

Outro dia acordei como se algo estivesse faltando. Parece que me faltou o ar, faltou-me o fôlego, faltou-me uma vontade de viver. Sintomas de depressão? Duvido que seja. Era mais um sintoma do efeito colateral de pensar demais. Desde que me conheço por gente tenho essa necessidade de tentar entender o que acontece ao meu redor e, por ser assim, muitas vezes me sinto com um peixe fora d’água nos lugares em que estou.

Sabe quando você se olha no espelho e não reconhece o que faz? Permite que a sabedoria do outro influencie na sua maneira de levar a vida? Percebe-se como um atrasado num lugar de apresados? Sabe?

Venho tendo uns dias assim, em que a síndrome da repetição me persegue. Faço as mesmas perguntas, faço os mesmos trabalhos, faço das minhas escolhas um campo minado em que brota involuntariamente a incapacidade de seguir em frente.

Não é auto boicote. É simplesmente a perseguição de sentir uma medonha falta de perspectiva, em que tudo se repete. Dia após dia. Numa nauseante e nefasta sensação de se sentir o mesmo. Até que num dado momento você descobre que nada muda: que amanhã você acordará novamente e haverá os mesmos lampejos, os mesmos personagens, as mesmas histórias. Feito um corpo que é habitado pela repetição de cumprir tarefas. Como uma máquina programada para exercer a mesma função para sempre. Mas como toda máquina, tem seu dia de rebeldia, o dia em que não quer funcionar direito, o dia em que não quer se movimentar, o dia em que precisa de um ajuste para seguir o ritmo da solenidade e do bom andamento da vida.

Até me perguntaram o que anda acontecendo. Estou calado demais. Retraído demais. Desmotivado demais. Todos aqueles adjetivos que nos caracterizam num certo momento e que exige o advérbio de intensidade. Ando me sentindo assim: tudo em demasia.

Dias de melancolia? Acredito que não, embora que o frio e a chuva contribuam para isso. Ando sofrendo por uma perda? Talvez. A perda de mim mesmo. Aquela perda em que a gente percebe tudo girando. Como se o mal-estar estivesse num patamar pouco palpável.

O que, afinal, anda me cercando? A existência pedindo evolução e menos questionamento. O corpo pedindo mais prazer e menos cortesia. No final das contas, o problema mesmo é que meu silêncio não fala, mas grita.

Comments

comments

Deixe uma resposta