Simplificação das coisas

É um comercial antigo da Maracugina. Uma mulher está retocando o batom quando seu marido chega e ela diz: “Oi, amor, vamos jantar fora, a Maria pediu as contas e aí a gente aproveita e conversa da Aninha que repetiu de ano, e vamos no teu carro porque o Paulinho bateu o meu, tá bom?”.  Diz isso muito sutilmente, no que ele retruca: “Você fala isso com essa calma?”. Ri alto. Não porque o vídeo seja assim tão engraçado (ok, achei o vídeo engraçado), mas porque vai de encontrar ao que sempre defendi: honestidade e assertividade. Essas duas palavrinhas andam ou não andam em falta no mercado?

Honestidade não é sinônimo de “falar o que der na telha” — como se induz. Honestidade é ser franco com parcimônia. É ser sincero consigo mesmo ao dizer “sim” e ao dizer “não”. É dizer o que pensa sem ofender, sem agredir, e é aí que entra a assertividade que, basicamente, é dizer o que se passa na cachola sem causar algum dano.

Mas admito, nem sempre fui assim. Às vezes não queria ir a algum lugar e dava um monte de justificativa quando poderia dizer apenas “não, obrigado”. Enfim, eu sempre encontrava uma desculpa para o não. Tento melhorar esse meu lado autoexplicativo. Porém, conheço pessoas que levam a coisa mais a sério, são pessoas que possuem acervos de fotos dentro dos hospitais, doente, gripado, simplesmente para não precisar dizer NÃO. Tenho um amigo assim, que dá desculpas com fotos, com dores que não tem para “não magoar o outro”. Perguntei o sentido disso, ele: “Ah, tem me ajudado bastante”. Respondi: pelo contrário, acho que você faz isso porque não consegue lidar com a palavra não.

Resumindo, ficou três semanas sem falar comigo.

Cá entre nós, estaríamos no paraíso celeste se fôssemos honestos e assertivos, não é mesmo? “Pai, bate seu carro!” “Meu filho, o dano foi grande? Saiba que terá que consertar com seu dinheiro, ok?” “Mãe, todas as minhas notas estão vermelhas, acho que vou repetir o ano.” “Meu filho, se esforce para que isso não aconteça, mas se acontecer, tudo bem, arque com suas responsabilidades.” E de vez em quanto chamar a atenção para mostrar que está de olho no fuleiro e para mostrar também os limites.

Utópico demais, eu sei. Mas é assim que tinha que ser. Pra tudo na vida. Desde situações mais embaraçosas até as corriqueiras. Se tiver que virar a mesa, jogar o prato, o copo e o vaso na parede, que jogue. Mas nada de fazer a pose de estúpido e arrogante. Nada de fazer a pose de agressivo-passivo, nada de ficar enfatizando “onde foi que eu errei”. Sem drama, corra atrás do prejuízo. Tudo é solúvel.

E caso não for, paciência. Tome Maracugina, não acredito que resolva. Ou nas melhoras das hipóteses: se contente que no final das contas tudo vai dar em nada mesmo.

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