Contando com a sorte

Outro dia tive a oportunidade de entrevistar o observador técnico do Palmeiras, que são conhecidos como “olheiros”, profissionais que realizam trabalho pelo Brasil todo à procura de talentos do futebol. Eu, que nunca me interessei por futebol. Eu, que não torço por time algum, passei a admirar esse homem que entrevistei.

Sentei ao lado do técnico, muito humilde por sinal, e perguntei quais são os critérios para realizar o “peneirão” (que é basicamente uma avaliação com garotos da faixa etária entre 10 a 16 anos), ele disse que avalia o físico, a disposição, o desenvolvimento cognitivo e observa se fazem exercícios físicos com frequência.

Leigo no assunto, perguntei: então essa avaliação é como o mercado de trabalho? Ele: “Exatamente. Você estudou e provavelmente sua família tem condições, mas olha bem para esses garotos, todos eles têm talento, mas falta o preparo físico, a alimentação saudável, uma estrutura familiar; precisam fazer exercícios sempre e muitas vezes não podem porque os pais trabalham e não dão devida atenção aos filhos”.

Eu fiquei olhando para o que estava dizendo de modo que dentro de mim abria-se uma cratera. “O meu critério é também analisar se esses jovens são melhores do que os que já temos no clube, e geralmente, os que estão lá tiveram oportunidades, porque os pais investiram desde pequenos.” E continuou: “Antigamente, na minha época, avaliava-se os jovens pelo amor que tinham pela bola, mas hoje isso só não basta, precisa de mais”.

Depois disso tudo vou dizer o quê?

Olhando o contexto social do nosso país, pensei com meus botões: mas isso é muito triste. Além de esses garotos gostarem de jogar bola, ficarem debaixo do sol, eles precisam de sorte para nascer numa família que tenham condições de bancar os sonhos deles.

Oportunidades aparecem para todos, acredito nisso, mas entre a oportunidade e ser escolhido existe uma distância de milhas. Vários fatores interferem, os negros não têm as mesmas chances que nós, o menino da favela também não. Assim como não têm chances aqueles que tiveram pouca instrução. Aqueles garotos que são responsáveis pelos irmãos mais novos, que são responsáveis por si mesmos. 

Toda vez que vejo uma notícia apontando o avanço na classe baixa, me pergunto se é avanço mesmo. Avanço nós teríamos se deixássemos de ler as estatísticas, os relatórios, às pesquisas e observássemos essa massificação do elitista esnobe, do qual me arrepia, em que olham apenas para si mesmos, enquanto a desigualdade só aumenta.

Voltei para o meu trabalho acreditando que aquele Senhor, de alguma forma, brotou esperança na cabeça daqueles garotos instigando a vencer, mesmo com pouca sorte. 

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