Sozinho e muito bem acompanhado

Há algum tempo, escrevi uma crônica que falava sobre como é ficar sozinho. Ficar sozinho pra valer — você e você mesmo. Já experimentou? Naquele texto “as vozes de dentro”, detalhei como é ficar sozinho depois de todos ter partido para uma viagem. Inexperiente no assunto, na segunda semana estava entrando em desespero, mesmo passado por uma crise existencial naquela época, os problemas não interferiam na minha escolha: ainda gosto de ficar sozinho.

Sozinho eu deixo as cenas de lado, sozinho não tenho que ficar dando explicações do meu silêncio, sozinho faço o que quero o que não quero sem pensar no que acontece ao meu redor, sozinho sou eu mesmo sem personagem. Muitos vão achar estranho essa minha necessidade de ficar sozinho, mas quem evita o contato com você mesmo nunca saberá quem é.

O mesmo aconteceu com Elizabeth Gilbert no seu livro biografo Comer, rezar, amar. Ela que tinha uma vida padronizada casamento fixo, casa, emprego, descobre que não quer mais continuar casada e muito menos ter filhos, (ora, é o que se espera depois de um casamento: filhos). Ela acaba desconhecendo a si mesma diante desse papel. Então, disposta a abrir mão de tudo,embarca para uma jornada espiritual em busca de se conhecer.

Não é à toa que passado quase dez anos quando esse livro foi publicado, ainda faz sucesso. Estar de cara a cara com você mesmo é uma degustação visceral que causa impacto em qualquer indivíduo que tenha audácia de experimentar. Completamente sozinha Elizabeth Gilbert embarca para Itália, Índia e Indonésia em busca da verdade.

Podemos fazer isso sem sair do país. Dentro da nossa própria casa podemos nos conhecer, nem é preciso gastar dinheiro em busca da verdade — tudo de graça. Sozinhos podemos nos olhar para o espelho e nos reconhecer; você se conhece? Quando damos espaço para o introspectivo, automaticamente, damos espaço e para a verdadeira pessoa que somos — solidão tem que ser vivida também ela nos dá muitas respostas.

No começo pode até ser um pouco difícil, sem contato, sem pessoas em volta, talvez você chore um pouco quando tudo estiver apagado, contudo, suas vozes internas também ganhará vida. Chore tudo que tiver que chorar. Deixar a solidão invadir é o primeiro passo para se conhecer, algumas verdades nascem da solidão. Porque antes de se perdoar você vai sofrer um pouco, mas depois, você e você mesmo ficaram amigos. Alguns acham que ficar sozinho é coisa de gente egoísta. Não ligue pra isso. Você não será egoísta por fazer um bem para si mesmo. Depois desse breve período em que você se afogou na melancolia, voltará pra vida mais feliz. Admitir a dor que sente, sem camuflá-la, é um verdadeiro ato de coragem. Outras pessoas acham que felicidade são metas compridas, sucesso profissional, enfim, o chegar lá. Isso da uma felicidade e tanto, mas nada se compara estando bem consigo mesmo. Calma, silêncio, plenitude, não são muitos que consegue essa dádiva.

Agora, aqui, por exemplo, estou sozinho e tudo está tranquilo. Estou escrevendo esta crônica, comendo bolacha, tomando chá, lendo um bom livro, fazendo algumas anotações e felicíssimo igual a quem tem sucesso profissional, acredite, minha vida está virada do avesso e também não estou no auge da minha carreira, continuo solteiro e mesmo assim consigo ser feliz.

Depois que damos conta de que tudo é imprevisível, provisório, que nossos amores também são, descobrimos que outros amores estão próximos de nós. Eles não são pares, eles são ímpares. Eles costumam se aproximar quando estamos totalmente sozinhos: o amor próprio. Não há nada mais valioso na vida quando estamos em paz com nós mesmos.

E se alguém sentir pena por você está sozinho, apenas responda que você está muito bem acompanhado — não tenha dúvida! — vão entender o recado.

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