Sucessões de Desistência

Desde que nascemos somos condicionados a exercer algumas tarefas que foram catalogadas antes de estarmos aqui. Algumas dessas funções, se não forem exercidas, implicarão no bom andamento da sociedade e no crescimento pessoal. À medida que o tempo passa, essas “obrigações” têm me causado um estranhamento interno. De uns tempos para cá, venho me espantado com a passagem do tempo — tempo esse que sempre está um passo à frente de todos nós.

Explico: é que encontrei, dia desses, numa loja qualquer no centro da cidade, uma amiga com a qual fiz um juramento: desde pequenos tínhamos jurado um para o outro que nunca iríamos nos separar, mesmo com a passagem dos anos, mesmo se casássemos, mesmo se cada um fosse morar em outro país, pois tínhamos feito um acordo: um tinha que ligar para o outro para conservar a amizade até o fim dos nossos dias.

Ao vê-la, lembrei-me desse acordo que fizemos, ainda, na 5ª série. Perguntei como ela estava, o que tinha feito da vida, se casou, se está feliz. Enfim, disse ela, quando trocamos meia dúzia de palavras, que mudei muito. (É o que se espera, não é? Mudar com o tempo?) Resumindo a história: nos abraçamos e cada um seguiu seu destino.

Em seguida fui até ao cartório e finalizar outros afazeres com algo dentro de mim incomodando. Como pode, uma amizade que parecia ser tão fraterna, se fragmentar desse jeito?

Vim embora refletindo sobre o assunto até chegar à conclusão de que esse é o ciclo da vida. Construímos amizades e vínculos por períodos determinados. Se eu estiver sendo provinciano me corrijam, mas a cada dia que se passa fico mais convicto de que não há amizade que “dure para sempre”. As pessoas entram em nossas vidas por um breve período; e quando fechamos o ciclo, em um determinado momento, elas vão embora, permitindo que outras pessoas entrem nas nossas vidas estabelecendo novas experiências até que venha outro ciclo.

Se meu conceito estiver certo, essas sucessões de desistência se implicam a todas as áreas de nossas vidas, inclusive profissional. Porque, durante todo o percurso, entramos por uma porta, depois saímos por essa mesma porta levando uma bagagem de experiências que se perderam brevemente. E nesse pequeno intervalo de tempo entramos em outra porta e saímos novamente. É nessas sucessões de desistência que a gente vai, aos poucos, se fazendo. Expandindo os horizontes, obtendo novas experiências e se autoconhecendo. Se desconstruindo para ganhar novos saberes.

Esse é o ciclo da vida. Uma etapa alcançada atrás da outra. Até encontrarmos a porta definitiva: aquela que não cabe bagagem, não cabem sonhos, não cabem amigos, não cabe ninguém além de nos mesmos. O vácuo do nada. Esse é o nosso destino: a porta da eterna dormência.

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