Terapia da incompreensão de tudo

Ela me ouviu por volta de 3 minutos até interromper: “O que realmente importa no final das contas, meu caro, é encontrar a felicidade”. Felicidade é uma palavra tão desgastada… “Então é assim, a vida se resume a uma única coisa: ser feliz?”, eu disse aos prantos e então ela continuou: “Esse medo que você sente é natural. A gente nunca vai ter controle de nada. Nem sobre as coisas que nos acontecem tampouco sobre o que acontece no mundo”.

É difícil ouvir uma verdade tão avassaladora em tão pouco tempo. Ela me julgava entender isso e muito mais. Até dizer que dia desses quase me joguei na frente de um caminhão. “O que é, vai me receitar antidepressivos também, pois saiba que não irei tomar uma gosta.” Ela riu e disse: “Você não tentou suicídio. Você viu, ali, naquele exato instante antes do ato, a importância da vida”. Chorei um pouco mais até ela me perguntar: “Qual é o motivo desse lamento todo?”.

Nada é tão inútil do que procurar um motivo aparente. Joguei meu corpo quando comecei a dizer: olha aqui, quem é que, possuindo um cérebro e dois parafusos funcionando não se pergunta várias vezes ao dia se realmente é feliz, se há uma condescendência de fato nas escolhas, se nas nossas atitudes há um contentamento com a honestidade ou se simplesmente é medo de ir contra todos que estão à nossa volta.

Às vezes dá vontade de pular na frente do caminhão por puro cansaço. Viver é exaustivo demais. Olha a nossa volta, não há nada de diferente acontecendo, não há uma exuberância. Tudo se repete. Todos os dias acontecem às mesmas coisas, as mesmas conversas, as mesmas discussões. Às vezes dá vontade de pular na frente do caminhão pela facilidade da coisa. A morte, ali, ao meu lado, tem um quê de encantamento. O motivo? Não precisa de motivo algum. Se matar pra gente ser fiel a nós mesmos até a última instância. Se matar para não precisar mais pensar sobre nada. Sono eterno. Não é o que todo mundo quer?

Somos todos suicidas. A gente se mata o tempo todo. Seja na escolha de fazer nada, seja pela vontade de sumir. A gente se mata no não cumprimento das tarefas porque a cobrança acontece dentro. A conduta imposta nesta sociedade hipócrita talvez seja o motivo do desespero.

Olha para essa vida que levamos, olha ao redor, é sorrisos e mais sorrisos. Tem gente que evita a si mesmo por medo da decadência, enquanto outros vivenciam angústia até o último aperitivo, embora que, nem todos possuem equilíbrio emocional para apaziguar os demônios internos. As pessoas se matam não para deixar um legado, alguns até pode ser, mas a maioria se matam por inquietação, por incomplacência. Há pessoas que se cansam fácil dessa brincadeira: casamento, profissão, amigos e religião. Tudo isso predispõe certa emoção nem todos têm paciência para essa brincadeira de adulto. Há pessoas que têm seu momento de chega.

Tem gente, minha cara, que não sabe conviver com esses outros eus que existem em nós. Há gente que não sabe transformar a angústia em arte. Não sabe o que fazer com seus questionamentos, não saber o que fazer consigo mesmo, e no final das contas, acho que é isso que me salva de não cometer uma loucura, ainda que tentadora; pois, atender ao imediatismo de uma desistência é, de algum modo, viver eternamente com a sensação de dever não cumprido. Camuflar a morte, fingir que não é tentadora é matar a consciência das possibilidades. Fingir que nada está acontecendo quando na verdade está; não se permitir por uma única vez pensamentos bárbaros, é suicídio igual. É por essas e outras coisas que a morte às vezes aparece como solução. O meu lamento é por isso tudo e mais algumas coisas. Essas outras coisas vão ficar para outro dia. Até logo.

Sai do consultório avariado, mas certo de que ela havia entendido o meu recado. “Encontrar a felicidade” como indagou não é tão simples quanto parece.

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