Terapia no carro

Quem já fez análise em algum momento da vida sabe que as perguntas que os psicoterapeutas fazem são de tirar o chão. Basta que pergunte como foi minha infância e tremo todo. De repente você está na sala do seu analista e ele pergunta como foi sua infância, como foi a relação com seu pai, quais foram seus medos e traumas? E aí, meu chapa, quem é você de fato?

Essa pergunta me constrange. Me constrange também a pergunta que Fernanda Montenegro se fez ao realizar o monólogo “Viver sem tempos mortos”, em 2009, uma adaptação do livro de Simone de Beauvoir: “O acaso sempre teve para mim um sentido muito claro. Mas às vezes quando acordo eu sinto um espanto pueril: por que eu sou eu?”.

Vai me dizer que não sentiu nada com essa pergunta?

Viver é construção. Nossos papéis sociais são sacramentados antes de estarmos formados, e aos poucos, ao longo da vida, vamos se construído, fazendo escolhas, dizendo sim para uma coisa e não para tantas outras, enfim, vamos apurando nossas preferências. Mas quem somos se confirma nas horas mais inusitadas.

Esse mesmo constrangimento eu senti dia desses numa ocasião inédita. Estava com duas amigas no shopping e na hora de voltar o namorado de uma delas (que nunca tinha visto na vida) ofereceu carona. Mal sabia o que me aguardava.

No caminho perguntou o que faço da vida. Disse que escrevia e que tinha um livro publicado. Então perguntou sobre o que era esse livro. Disse que eram crônicas e que sempre abordo questões da existência. Foi quando tudo começou: ele, pedagogo, mestre em não sei o quê, já estudou sobre Freud, Vygotsky e Piaget, começou a fazer perguntas que só amigos bem íntimos fazem. Como comecei a escrever, se escrevo para me esconder, enfim, estava numa sessão de terapia em meio ao trânsito. Então eu disse que já escrevi um texto explicando o porquê escrevo. Perguntou sobre a convivência com meu pai e o porquê fiz terapia. Respondi que tive uma infância muito difícil, que meu pai saiu muito cedo de casa, tive que cuidar do meu irmão e que isso influenciou muito na maneira como lido com as coisas. Então perguntou se tinha mais alguma coisa fora isso — porque ninguém faz análise por um motivo tão óbvio. Então, depois dessa longa aula sobre a minha existência, começou a falar sobre Deus. Nesse momento tínhamos chegado em casa: obrigado, pela carona, pela conversa doida que tivemos, até breve. (Querendo dizer até nunca mais.) 

Não falei muito, embora tivesse muito a dizer, mas convenhamos: não abrimos nossa vida na primeira vez em que conhecemos o namorado da amiga. Ele entendeu o recado.

Meu caro, têm coisas que nunca falei ao analista nem por isso significa que seja algo tão tenebroso a ponto de não ser compreendido. A verdade é que ninguém, nunca, vai ter acesso aos pequenos crimes que já cometi — a não ser que eu deixe.  

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