Tirando a camisa

Chegue a trocar correspondências por um longo e entusiástico período com um amigo. Nelas falávamos sobre o que a vida nos proporcionou até aqui. Algumas vezes contávamos um ao outro sobre como estava o nosso dia, de uma forma poética, para tentar amenizar essa porra-louquice que é a vida. Pensamos em publicar um livro com os relatos que indagávamos, mas ele tem uma vida corrida, e eu quis imitá-lo, acabamos deixando essa ideia de lado.

Lembro que numa das cartas perguntou como se tira uma camisa, que é uma metáfora para se desvincular dos dogmas que outorgamos e aderimos por incontingência. Eu respondi que tirar a camisa precisa-se de cuidado, pois há pessoas que não têm considerações sobre o que há guardado em nós, aquilo que levamos no íntimo.

Nisso, eu disse também que certa vez fui comprar roupas para renovar o armário, quando percebi que estava numa loja cujo estilo era para homens acima de quarenta anos. Eu estava no meio daqueles homens do qual tinha aparência de ter filhos e carreira promissora. Até que, a certa altura da carta, indaguei: por qual motivo optei, diante de tantos estilos e gostos, vestir-se como um homem que usa suéter?

Essa era uma das tantas perguntas que me cercava na época, mas não exigi tanto esforço para responder porque logo intui que às vivências que tive formataram minhas escolhas e preferências; enfim, já compreendia que os nossos gostos também são frutos de ensinamentos. Embora não ter levado nada, sai daquela loja querendo colocar um short e uma camiseta regata (nem uso camiseta regata) a fim de tentar desvincular a minha essência exagerada pelo tradicionalismo.

No entanto, hoje compreendo essas minhas oscilações de humores muito mais que tempos atrás. Eu não queria mais transmitir a imagem de homem sério (nem sou sério), eu não queria mais transmitir a imagem de um homem maduro com o rótulo de sensato. Eu almejava o incompreensível, andar pela rua sem que me vissem como um homem que presta solidariedade, que diz bom dia às pessoas. Eu queria mesmo é deixar de ser previsível.

E de lá pra, conheci outro eu que estava na inércia. Expandi minhas possibilidades, levei mais a sério minhas vontades e quebrei o protocolo. Passei a experimentar a vida. Comecei a ir a festas, a baladas — e não porque todos fazem isso, mas porque precisava descobrir o outro eu fora de casa, fora dessa formalidade descabida. Optei por muito tempo seguir a conduta de bom-moço. Até entender que não precisava da permissão de ninguém para ser quem eu sou.  

As pessoas ainda podem confiar em mim, podem confiar em minha palavra. Contínuo responsável como sempre fui. A única diferença é que agora eu quero deixar aquela pessoa previsível e tirar a camisa sem o menor pudor — que ninguém me ouse parar.

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