Traição e fidelidade

“O que fazer quando se descobre uma paixão? Quando se descobre que depositou uma expectativa em um homem, que não é seu marido, mas que a faz sentir viva? O que fazer, diante das lágrimas que não cessam, com isso que sentimos dentro?” Ela relatou em meio ao desespero. Ela, que hoje está casada, descobriu que sente algo por outro homem. Ele, que também é casado, descobriu que está apaixonado por essa minha amiga. Já vi esse filme e o final não é muito agradável.

Ela me pediu ajuda para seu conflito amoroso, acreditando fielmente que quem escreve têm fórmulas mágicas para resolver problemas.

Minha cara, qualquer um fica vulnerável diante de uma declaração como me contou, ainda mais quando se está casada e todos os dias parecem os mesmos. Mas te garanto: ninguém sabe o que fazer diante da vulnerabilidade da paixão. Você deve ter se apaixonado por esse príncipe que sabe usar as palavras — esse é o homem que construiu na sua cabeça. Quando nos apaixonamos criamos uma personagem e o idealizamos, no entanto, a pergunta crucial que se deve fazer, na minha humilde opinião, é se esse homem por quem se apaixonou é o mesmo do dia a dia.

Ninguém se constrói em cima de elogios, amores, leveza; deveria ser assim, mas somos complicados demais e quando estiverem um de frente para o outro trocando impressões: vão se frustrar. Acredito na veracidade do amor, no poder que ele causa — e sabemos bem a diferença entre amor e paixão —, mas será que não está projetando nele o homem ideal que criou em sua mente?

A coisa está ficando séria e uma hora ou outra terá que decidir se é isso mesmo que quer. Terá que colocar na balança a sua vida atual, e terá ainda que enfrentar a si mesma (coisa que já está acontecendo); e ele, a mesma coisa. Vale a pena?

Acho natural isso acontecer, construir uma relação duradoura dá um prazer e tanto, mas como tudo na vida têm os contras, a monotonia cansa e os dias se repetem tanto que quase não há um estupor. É natural que a traição, nem gosto dessa palavra, apareça de uma forma para dar sentido à vida, que talvez já tenha se perdido a essa altura do campeonato. Não vamos ser hipócritas, isso é mais comum do que se parece.

No entanto, posso estar equivocado, e esse pode ser o homem amoroso, carinhoso, atencioso como contou, mas um relacionamento só se constrói com base nisso? E as falhas? E a loucura? E o jeito errado de comer? E aquele chapéu horroroso que usa? Não é esse conjunto que torna o amor verossímil?

O que posso dizer é: se você for louca o suficiente para embarcar nessa aventura, ciente das escolhas e das consequências, vá em frente. Se for louca o suficiente para reprimir esse desejo incontrolável, recue. Você carregará a dúvida em ambas alternativas. Como disse Lya Luft certa vez: as pessoas são responsáveis e inocentes em relação ao que acontecem com elas, sendo autoras de boa parte de suas escolhas e omissões.

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