Turning point

Você consegue fazer tudo que planeja? Acordar, se trocar, ir ao trabalho, voltar, pegar trânsito, buscar as crianças na escola, depois ir ao supermercado, pegar trânsito de novo, guardar as compras, cuidar das crianças, mimar o marido, preparar o jantar, fazer a lancheira do pequeno, tomar banho, cuidar da pele, cuidar do cabelo, assistir a sua série favorita e só então ir dormir? Ufa, deixa-me respirar, por favor.

Eu não sei vocês, mas não consigo executar metade do que planejo fazer num dia. Se você consegue administrar a vida com tanta exatidão, me passe à fórmula. Caso contrário, vai concordar comigo: é o tempo que anda passando rápido demais.

São tempos tão frenéticos que mal conseguimos se olhar no espelho, ir ao cinema, tomar um banho demorado (uma vez por mês pode, vai?), ficar o dia todo sem fazer nada. Nada mesmo. Sem tevê, sem internet, sem celular. Aliás, o tempo tem passado tão de pressa que nem consigo acompanhar às notícias. A impressão que tenho é que se não ficar atento o tempo vai acabar me dando uma rasteira.

Tempo. Quem é este que tanto nos falta?

Há quem o usa como válvula de escape: “Desculpe, estou sem tempo”. “E eu lá tenho tempo, moça?”.

Mas sabe de uma coisa, o tempo segue seu percurso normal. Os ponteiros do relógio, idem. Ele está sendo apenas mal administrado. E tempo, convenhamos, temos pra tudo, e isso não é conversa fiada — a gente só prioriza aquilo que é de nossa conivência.

A gente é que se resigna a viver dia após dia no piloto automático. A pular da cama porque está atrasado. A comer de pressa porque tem hora marcada. A ficar na timeline do Facebook porque não pode ficar ocioso no ônibus. A cochilar no ônibus porque há sempre sono em atraso.

Com isso, a gente passa a perder as pequenas maravilhas da vida. Aquelas que, somadas com a “falta de tempo” e indisposição, acabam passando despercebido. Seja um sorriso de alguém que não conhece, seja a alegria de uma criança, seja a inquietação de um adulto, até mesmo a raiva de um adolescente.

A gente se acostuma com as horas e se acostuma fazer às mesmas coisas todos os dias. A gente se acostuma a levantar cedo e dormir tarde. A gente se acostuma a comer qualquer besteira na rua e voltar para o trabalho. A gente adia uma vontade em detrimento de uma necessidade. A gente prioriza uma em função de outra.

É nesse frenesi diária que vamos, aos poucos, perdendo a essência, porque sabemos, bem lá no íntimo, que falta de tempo sempre vai estar atrelada a um ponto de decisão.

Comments

comments

Deixe uma resposta