Um jeito de ser

Ufa, ainda bem que o carnaval acabou. Isso quer dizer que posso falar o penso a respeito. Brincadeiras à parte – cada um sabe de si. Mas sofri uns perrengues durante todo o feriado. Tenho um amigo (nem sei se é amigo, já que me crítica o tempo todo) que não se conforma com o fato de não gostar de carnaval. Não se conforma mesmo. Eu falo pra ele: Murilo, não tenho paciência para folia nem para aquela aglomeração de gente pulando feito doído na rua. Ele olha pra mim e diz: “Leandro, você precisa aproveitar mais…”.

Mas o Murilo não desiste. No último domingo, pela manhã, me mandou um Whatsapp convidando para pular carnaval. Respondi que não ia. Perguntou o motivo. Então já cansado da insistência, eu disse: meu cachorro acabou de ser atropelado, minha mãe está passando mal, meu notebook quebrou e estou com uma enxaqueca daquelas. Ou seja, não vou nessa encarnação nem na outra.

No entanto, Murilo é daqueles que não se convence fácil e respondeu: “tô chegando aí”. Em vinte minutos Murilo aparece no portão de casa buzinando. Eu apareci no portão indignado, quase fulo, mas sou espiritualista e tento agir naturalmente e digo mais uma vez que não vou. Ele insiste: “Olha essas gatas aqui atrás, eu fico com uma e você pega as outras duas”. Cumprimento-as e digo novamente que não vou. Mas o Murilo é zombeteiro e novamente indagou: “Leandro, você precisa aproveitar mais a vida”.

Sorri, dei de ombros e entrei. Toda vez que ele me diz isso soa como se estivesse me alertando: “ah, Leandro, não perde por esperar”. É como se estivesse dizendo que daqui a pouco vou me casar, que chegarão os filhos e terei que trabalhar ainda mais para sustentá-los, e só então, na minha velhice, quando meus joelhos não estiverem mais firmes, quando me restarem apenas às memórias de tudo que poderia ter feito, irei me arrepender por não ter aproveitado mais a vida. Resumindo, é como se disse assim: aproveita porque daqui a pouco você vai preso.

Murilo, há várias formas de se aproveitar uma vida. Você gosta de bagunça e folia, eu prefiro assistir a um filme, a uma peça de teatro; ou quando não assisto, gosto de observar as pessoas andando pelas ruas, gosto de observar a chuva; e quando canso de assistir ou observar, vou ler um livro ou escrever – porque escrever também gosto. É mais que um gosto, quando escrevo não me pertenço, é como se eu estivesse em mim, mas ao mesmo tempo fora de mim. Quando escrevo, Murilo, me sinto leve. Me sinto solto. Me sinto inteiro. Como se explica sair de mim para conseguir chegar a mim mesmo? Eu não sei e não faço questão de entender.

Murilo, gosto de ficar sozinho com meus pensamentos e com minha demência. Esse é o meu jeito de ser. Sozinho me compreendo e se fico em lugares muitos agitados, perco a introspecção. Se perco a introspecção, então me perco.

Sei que ao ler isso não vai entender nada. Primeiro porque você é o oposto de mim. Você gosta de cerveja, eu prefiro vinho. Você gosta de calor, eu prefiro o frio. E segundo porque Murilo não é o seu nome.

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