Um lugar (des)conhecido

Ela me contou com os olhos brilhando: “Depois que eu casei, a coisa que mais sinto falta é a união que vivenciei na casa dos meus pais. Eu chegava da faculdade meu pai e minhas irmãs estavam me esperando para comer, para conversar, para rir… Sabe, me sentia abraçada; não que me sinta agora, mas, sei lá, é diferente”. Fiquei interessado no relato da minha amiga de tal modo que fui investigando mais a fundo, até que ela disse: “Depois que a gente sai da casa dos pais tudo fica diferente. Parece que não nós temos mais a liberdade que tínhamos antes, ficamos se policiando a todo o momento ‘será que estou sendo invasivo demais’. Para eles, a liberdade que eu tinha continua a mesma. Pra mim, tudo é estranho. A casa que vivi a minha infância e adolescência inteira de repente se tornou desconhecida. Já nem sei se posso deitar no sofá”.

Esta minha amiga casou-se recentemente e depois desse relato, eu vim pra casa pensando no como isso comum. Uma criança que naturalmente cresce vai querer privacidade e não permitirá que sua mãe veja-o pelado. Amigos que há muito tempo não se veem irão se estranhar no reencontro. Uma mulher que se divorcia do marido não poderá fazer as mesmas piadas que antes. Enfim, as relações mudam conforme o tempo, por isso é compreensível um lugar que era tão conhecido tornar-se desconhecido.

Você conviveu praticamente a infância e adolescência com seu melhor amigo, e de repente, o destino separa-os e quando vocês se vir novamente não vai ser mais a mesma coisa, vocês não estarão mais conectados como antes. Até que num dado momento você vai indagar: ele está tão diferente.

Tudo fica diferente. O conhecido fica desconhecido e a partir de então nasce à especulação: “Será que ele está com algum problema, achei ele tão maduro, nem parece aquele moleque que conheci?”. “Ela não era metida desse jeito, ou eu que nunca percebi?”.

As mudanças de papéis sociais causam estranhamento em qualquer indivíduo. O reencontro com seu ex-namorado vai causar estranheza. O reencontro com sua mãe. O reencontro com seu país, com seu bairro, com sua cidade. Tudo causará um efeito contrário.

A parede rabiscada com o nome do seu antigo amor vai te causar um arrependimento ou saudade. Esta mesma mancha vai te transportar para o exato momento em que fez aquele rabisco e vai se lembrar dos velhos tempos, das velhas brincadeiras, dos velhos hábitos que não são mais os mesmos — essas recordações todas que nem se lembrava mais devido a correria do dia a dia, preocupações com o trabalho, com a faculdade, com os filhos —, mas é justamente no reencontro com aquele pequeno detalhe que você chegará à conclusão que também se tornou desconhecida para si mesma. Que você mudou muito de lá pra cá. Que as roupas que usava antes não combina mais com seu novo repertório e que tudo, absolutamente tudo, está desconhecido.

O que fazer para voltar a reconhecer? Ué, deitar no sofá e esticar as pernas não deixa de ser um reencontro.

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