Um lugar para chorar

Quando criança adorava brincar de esconde-esconde, e sempre me escondia no lugar de fácil acesso: no banheiro. E da cozinha ouvia minha mãe dizer: “Se esconda em outro lugar, pois vão te achar ficando aí”. Em poucos minutos meus amigos me encontravam e novamente ouvia minha mãe dizer: “Eu avisei”. Mas era insistente, pois no outro dia escondia no mesmo lugar de maneira que virou hábito, inclusive até hoje.

Não fui um garoto do avesso, no entanto, se pegar relatos daquela criança (falo como se tivesse deixado de ser uma), provavelmente ouvirá daqueles que estavam próximos de mim a mesma história que ouço: uma criança calma, educada e ingênua. Ficava zangado quando me chamavam de ingênuo. Hoje não mais e vou contar o porquê.

Quando se é criança não há tanta responsabilidade como ser adulto. As responsabilidades que nos determinam é escovar os dentes, arrumar a mochila, tomar banho, lavar as mãos antes de comer e brincar — porque brincar também predispõe certa responsabilidade. Quando cresce, a brincadeira fica mais seria. Temos que estudar, trabalhar, andar pelas ruas com olhos bem abertos; temos também que acordar cedo — mesmo contra a nossa vontade — e casar. E o círculo da brincadeira vai, aos poucos, ficando ainda maior.

Então, para escapar dessa alienação, nos escondemos dentro do banheiro. Ficamos lá, sentado, lendo um livro, ouvindo uma música, pensando na vida, ficamos lá sem fazer nada para recuperar o fôlego e tentar voltar à ativa.

Às vezes perdemos esse mesmo fôlego no trabalho quando nos exigem algo que não estamos preparados para fazer, quando a pressão é tanta que se não fugirmos um pouco a sensação que nos toma é de desespero. Quando ficam nos cobrando para melhorar nisso, naquilo e aos poucos o nosso balde vai enchendo.

Até mesmo em casa às vezes é preciso dar uma fugida, e a vontade de se esconder sempre aparece no instante em que há visita. A vontade sempre aparece quando tudo que o outro diz soa como uma inconveniência absurda. Quando é possível sentir a petulância a quilômetros de distância, quando percebemos uma maldade aqui, uma simulação ali e uma arrogância acolá. A vontade de se esconder no banheiro surge quando há uma necessidade de ficar sozinho por alguns segundos.

Então entramos, fechamos a porta, olhamos para o teto e contamos uma, duas, três… 100 vezes até que o equilíbrio volte. Isso quando o choro não escorre. E ao sair ouvimos: “Te achei. Estava mesmo te procurando, onde é que você se enfiou, menino?”.

Todos nós carregamos uma criança entranhada, não é mesmo? Pois bem, estava brincando de esconde-esconde para manter certa sobriedade.

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