Um pai poeta

Soube recentemente que meu pai escrevia cartas para minha mãe quando eram noivos. Ambos moravam distante por conta do trabalho — meu pai morava aqui em Jundiaí, enquanto minha mãe morava numa cidade pequena, em Itapira.

As cartas foram escritas entre 1984 e 1985. Num tom singular, ele demonstrava toda afetividade: contava como estava o trabalho, perguntava se minha mãe estava bem, falava sobre o futuro, sobre o quanto estava trabalhando para mobiliar a casa para trazer ela embora; arriscou até escrever poemas, a certa altura, em uma das cartas, retrata: “Amor, eu estou morrendo de saudades e não vejo a hora de ir aí pra te ver, mas já que não posso, porque não vem você pra cá ou me escreva uma carta?, eu prometo que vou ler com toda a atenção e não vou rasgá-las, e assim, lhe mandarei respostas imediatamente dizendo que te amo, te quero, te adoro e que não posso viver sem você”.

Em outras tantas cartas eram assuntos pesados porque, como todo casal, havia brigas, havia mágoas, havia ressentimentos. Mas pelo conteúdo todo, nenhuma briga sobressaía à saudade.

Passados 32 anos, quando aquelas cartas foram escritas, o melhor de tudo foi saber que minha querida avó, que já não está mais entre nós, as guardou no intuito, talvez, de relembrar aquilo que deixamos de lado ou que insistimos em apagar.

Essas cartas ficaram guardadas por tanto tempo num baú de modo que minha mãe não se lembrava delas. Já meu pai, disse que nunca esqueceu. Quem diria que uns papéis amassados, amarelados e com cores quase mortas fossem reviver todas as aquelas lembranças que estavam no fundo da memória.

O melhor presente neste dia dos pais, talvez não seja para meu pai, mas, sim, para mim por descobrir a tempo aquilo que nunca imaginei um dia: que meu pai é um poeta. E um poeta refinado que através das palavras conseguia transmitir o mais puro sentimento — aqueles que apenas as palavras sabem descrever.

Eles estão divorciados há mais de 10 anos, mas estão juntos em memória. E nesse exato momento ao meu lado. Unidos por uma causa maior: o amor pelos filhos. O que posso desejar nesse dia dos pais não é que eles voltem um para o outro. Que essa vontade surja por espontaneidades próprias. A mesma espontaneidade que trouxe essas cartas em minhas mãos.

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