Uma parte de mim ficou

Será que sou o único que ao voltar de uma viagem sente uma coisa estranha? É uma sensação de falta, assemelha-se a angústia, mas não é angústia. Será que sou o único que sente isso?

Descobri que não esses dias ao assistir a um vídeo no canal de uma das jornalistas que mais admiro (já falei dela outras vezes aqui na coluna), ela mesma, Regina Volpato.  No vídeo Repensando: o valor do tempo, ela diz: “Todas as vezes que faço viagens longas de avião, a impressão que tenho é que eu chego, mas a alma demora mais um pouquinho. Eu chego, fico meio estranha, parece que uma parte de mim ficou e que preciso esperar para que tudo se encontre de novo”.

É exatamente isso que sinto. Toda vez que volto de uma viagem tenho essa sensação, mas nunca me chegaram palavras para descrever essa sensação de voltar e a alma ficar onde esteve. Comentei o fato com um amigo no que retrucou: o que você tem bebido?

É provável. É provável que isso aconteça só com quem processa o que acontece ao redor com veemência. Para quem acorda consumindo o dia, respirando as flores, ouvindo os pássaros; enfim, para quem processa tudo com muita intensidade.

Você pode ter ido à praia que tanto conhece sua existência, você pode ter visitado um parente que há tempo não o vê, você pode ter ido a qualquer lugar, mas só fato de entrar em contato com outras pessoas, com outras ruas, com outros prédios, com outros carros, com outras motos, com outras casas, vai mexer com o que você leva entranhado. É uma vista que vai te transbordar, é a quantidade de pessoas que vai te levar a refletir que é apenas mais um no meio de tantos, é o ar frio que vai te arrepiar, é o calor que vai te fazer reclamar. E por mais que o lado ranzinza dê as caras, você não poderá voltar pra casa dizendo que não sentiu nada.

Você sentiu. Você tocou. Você se transformou.

Ok; sua viagem pode não ter sido tão interessante assim, pode ter se estressado mais do que devia, pode ter deixado exausto mais do que devia, mas espera, então por que foi? Sair da toca requer mais do que bom humor, é preciso estar aberto para o imprevisível. É muita inocência acreditar que ao sair de casa acontecerá apenas coisas boas, convenhamos.

Mas só então, após desfazer as malas, é que vão aparecer os primeiros sinais da falta, o riso frouxo, a lembrança de uma conversa, a saudade de uma gargalhada, a saudade do que era. Sua alma ficou.

Pois bem, o reencontro com o corpo acontece na semana seguinte. Se na semana seguinte você ainda sentir falta, em vez de chegar à conclusão que bebe ou fuma, compre outra passagem, boba, e vai atrás da sua alma.

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