Verdades inventadas

O que você carrega dentro? Traumas, medos, lembranças mal lembradas, sonhos que não se concretizaram? O que, afinal, nos faz crer que a vida por si só justifica tudo? E suas escolhas, o que há mantém em pé? Provavelmente, se você é uma pessoa com cognição formada sabe que não é tão fácil conviver consigo mesmo. Sabe que os questionamentos internos fazem estragos imensos a ponto de nos forçar a ser quem não somos. Estou certo ou estou errado?

No livro Selma e Sinatra, de Martha Medeiros, narra esse drama. Uma jornalista que publicou três livros, mas não tem nenhum sucesso literário, decide escrever a biografia de Selma, uma grande cantora que marcou história. Era o que Guta (escritora) esperava, alguns meses de trabalho e logo o reconhecimento, o grande livro na lista do best-seller. Mas aos poucos vai percebendo que Selma é muito misteriosa, o que dificulta a relação entre as duas, já que um livro biógrafo exige muita sensibilidade e comoção. Se compararmos, a vida de Selma não era tão diferente de muitos de nós, casamento, filhos, carreira —, uma vida como manda a cartilha. A versão oficial que de alguma forma passamos adiante. As nossas verdades verdadeiras.

No entanto, aos poucos, Selma começa a colocar para fora todos os seus questionamentos, todas suas indignações; demonstrando ser uma pessoa que, aparentemente, não é. Ou é? Paro de falar sobre o livro aqui, já que não quero contar toda história a ponto de perder a graça.

Verdades verdadeiras ou verdades inventadas, o que lhe compõe? O que lhe torna ser o que é? Quem é você quando ninguém está olhando?

É sabido que todos nós possuímos verdades que deixamos que os outros saibam e as que ficam caladas dentro de nós — aquelas que poucas vezes abrimos para nos mesmos. Entretanto, essas verdades verdadeiras são aquelas que se instalaram em nós por contingência e destino, e não por escolha. Uma mulher que não é alta terá que enfrentar a dolorosa dor de se aceitar. Um homem não tão atraente, o mesmo.

Verdades verdadeiras também são todas as coisas que outorgamos como fonte das nossas características, preferências e opiniões passam por esse processo, enfim, as verdades verdadeiras são todas aquelas que de algum modo transmitimos: a verdadeira busca pelas verdades inventadas.

O que são verdades inventadas? São as válvulas de escapes. É a idealização das coisas. São as verdades escolhidas diante de uma cartilha de opções. São todas as coisas que nos acontecem, mas que são analisadas por outro ponto de vista. São as versões que desejamos passar para as pessoas, uma versão menos dogmática e mais sofisticada, aquela versão de nós menos sofrida.

A verdade verdadeira são todos traumas que tivemos, são todos aqueles medos do escuro, são todos os embaraços internos, são todos os sofrimentos trazidos por herança. A verdade verdadeira é a nossa versão guardada no íntimo.

A verdade inventada, por outro lado, sabe que a felicidade é abstrata, já a verdade verdadeira é muito concreta. Muito oficial. A verdade inventada é uma forma de arejar a nossa biografia, aquela que depois de muitos conflitos superados, narra outra versão. Aquela outra versão que passa longe de ser mentira.

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