Você não vai se casar?

Eu estava num casamento dia desses quando uma tia que de longa data não havia aproximou-se e disse: “E você, meu filho, não vai se casar?”. Tomei o refrigerante que estava em minhas mãos goela baixo para não precisar responder, e então ela continuou: “Meu filho, você tem que se casar, tem que ter filhos, precisa de estabilidade e nada de querer adotar uma criança, por que sei bem que pensa nisso”. Balancei a cabeça concordando por obediência que é de minha característica enquanto pensava: vou me casar sim.

Vou me casar com as minhas vontades e desejos. Vou viajar pelo mundo afora e conectar com minhas outras possibilidades de ser e estar. Vou conhecer Londres, Itália, vou conhecer à Europa toda. Irei degustar os melhores vinhos e consumir muita arte. Vou gozar o incrível trabalho de Michelangelo e sentir nas suas criações o valor da vida.

Vou vestir a melhor roupa para um encontro. Quero tudo como se fosse pela primeira vez. Quero sentir êxtase pelo casamento tão esperado. Quero dar um beijo em alguém que ainda não conheço, quero uma noite de amor e sexo. Um dia inteiro para me reconhecer capaz de amar alguém que me ama. Quero respirar minhas vontades e desejos com o mesmo ímpeto que respiro a ansiedade.

Quero que o fato de ser uma pessoa normal como às outras não me tire à alegria de vivenciar a tristeza. Quero acordar num dia qualquer e me sentir abraçado mesmo estando sozinho. Que o fato de não querer me casar não tire à vontade de viver. Que mesmo seja contrariado eu consiga reconectar com as minhas fragilidades.

Quero viajar para dentro de mim mesmo com a mesma intensidade que tenho para ver o mundo. Que no contato entre esses tantos que há em mim eu consiga encontrar o empoderamento para me fortalecer. E que nesse processo eu encontre a emancipação. Que eu consiga ser menos engajado ao servilismo cortês e menos suscetível a manipulação social como casar, ter filhos, trabalhar e morrer.

Quero que o fato de ter vários neurônios funcionando não me tire à liberdade de construir outros tipos de felicidade. Que eu consiga encontrar em meio a essa bagunça toda a essência daquilo que me faz acreditar e existir.

Que na relação comigo mesmo  ­— que é a única verdadeiramente para sempre — eu consiga sobreviver em meio às crises existenciais. Que eu consiga no futuro próximo não me importar tanto com o que pensam os outros, o que fazem os outros, o que acham os outros. Que eu consiga sobreviver a todas as cobranças — começando pelas internas.

E que um dia eu possa olhar para trás e perceber que tudo faz parte de um processo — mesmo que insisto em dizer que não. Que eu consiga evoluir mais. Rir mais. Chorar muito mais. Para depois compreender melhor esse mundo.

“Você vai se casar, né, meu filho?” Em breve, tia. Em breve.

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